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terça-feira, 13 de maio de 2014

Racismo: apesar de polêmicas, entidades sinalizam avanços

Associações e ativistas em defesa do negro apontam que a população avançou degraus sociais, mas do ponto de vista racial ainda é considerado insuficiente

É unanimidade entre os representantes de entidades de defesa dos direitos dos negros no Brasil que o racismo ainda é uma questão a ser combatida. Porém, já é possível citar avanços que contribuem para um país menos preconceituoso.

O representante do movimento negro da União de Núcleos de Educação Popular para Negras\os e Classe Trabalhadora (UNEafro Brasil), Douglas Belchior, acredita que a população negra subiu degraus no sentido de consumo, mais por conta da dinâmica do processo produtivo do que por parte de seus direitos. “Os avanços no ponto de vista geral existem. Porém, do ponto de vista racial, são insuficientes. A população negra continua onde esteve desde sempre: na base da pirâmide brasileira. Demoram mais para conseguir emprego, são mais mal tratados nos serviços de atendimento do Estado.” Segundo o militante e professor de história, o movimento negro, nos últimos 20 anos, optou por defender as políticas compensatórias e pontuais, mas não estruturantes. “A lei de cotas raciais, agora migrando para os concursos públicos, conferências nacionais e mundiais sobre o tema e o debate como um todo na sociedade proporcionaram avanço na autoestima e confiança dos negros”, contrapõe.

Alexandre Braga, diretor Nacional de Comunicação da União de Negros pela Igualdade (Unegro), entidade presente em 24 Estados brasileiros, conta que o pontapé inicial para o avanço da luta contra o racismo no Brasil aconteceu na Conferência Mundial contra o Racismo, da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em 2001 na África do Sul. “A partir da conferência, tivemos um grande avanço do governo no âmbito da educação, com a política de cotas, que mostra inclusive que os cotistas vêm atingindo notas tão boas quanto os não cotistas.”

A secretária-executiva da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), Simone Cruz, cita que, com a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, se tornou possível a aplicação de políticas públicas de questões específicas da população negra. “Hoje, conseguimos traduzir questões que não tinham visibilidade em políticas, como a das cotas e a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. A visibilidade do debate sobre a igualdade racial, principalmente em um País onde ainda existe a negação do racismo e onde quando alguém diz que existe racismo, nunca admite ele mesmo ser racista, é um processo que ajudou no avanço do reconhecimento do problema em diferentes esferas do governo.”

O que ainda precisa avançar no debate racial?
Para Belchior, ainda é preciso reconhecer que o racismo é um problema estrutural. “O que é racismo no Brasil? Para o povo negro, o garoto que a jornalista Raquel Sherazade chamou de 'marginalzinho' está naquela posição por conta do racismo. A sociedade não enxerga o fato como um problema racista. Na fila do SUS, quem morre?, quem está na fila? A maioria esmagadora da população negra do País. Embora o elemento racial não apareça no meio da equação, o racismo sempre estará presente no resultado do conflito das desigualdades sociais”, explica. Belchior ainda exemplifica que, quando dizemos que o ensino público brasileiro é ruim, dizemos que é ruim para todos os estudantes, independentemente de raça. Mas quando analisamos os resultados, 70% dos analfabetos são negros, segundo ele. “Não há, no Brasil, um combate contra o sentimento racista. Agora, com a lei que implementa o estudo da cultura afrobrasileira desde as séries iniciais, temos uma oportunidade de combater sua ideologia, que gera violência”.

Braga afirma que é preciso aumentar as políticas públicas para a cultura e desenvolvimento econômico, além da educação, estendendo também o combate às redes sociais. “Com as redes sociais, a pessoa pode se esconder e consegue mandar uma mensagem preconceituosa. É o racismo velado”, diz.

Simone acrescenta que os impactos do preconceito racial na vida dos negros devem ser identificados, trabalho que já começou a ser feito em um livro lançado pela Organização, Mulheres Negras na Primeira Pessoa. “Muitas vezes, achamos que as cotas vão resolver o problema racial, mas é muito mais que isso. É preciso que as mulheres negras conheçam e entendam seu real valor, tenham autoestima, por exemplo. Para além da questão da vulnerabilidade social, o racismo é um determinante social”, afirma. Ela ressalta também a importância de dialogar com outras raças. “Nós (negros) reconhecemos o que é o racismo, mas as pessoas não negras é que precisam ter consciência que é um problema da sociedade brasileira e que existe uma questão histórica e política que sempre foi negada na mídia, mas que chegou ao ponto de não ter mais como negar”, ressalta.

Somos muitos mais humanos do que macacos

O ativista Belchior acha inadmissível que ainda tenhamos de lidar com manifestações racistas. “A ação do jogador Daniel Alves foi interessante e positiva por gerar debate. Mas nas declarações posteriores que deu, ele disse que o melhor seria ignorar, que é assim mesmo, e isso foi negativo. Não acredito que devamos ignorar sem aprofundar o tema, pois é uma mensagem racista”, afirma. “Quanto à campanha, foi infeliz, para não dizer uma reafirmação do racismo. Não somos todos macacos. Ser chamado de macaco é uma ofensa que está na raiz cultural brasileira, e não vamos conseguir transformar isso em uma afirmação legal. Crianças negras, no dia seguinte na escola, podem sofrer ainda mais com isso, pois virou algo que o Neymar falou, por exemplo.”

Todas as vezes em que a sociedade se mobiliza por um problema social é positivo, mas é preciso tomar mais cuidado com o conteúdo. É no que acredita Braga, da Unegro. “É bacana ver a solidariedade das pessoas ao criticar um problema muito grave no Brasil, mas o conteúdo foi errado. Talvez se usassem a frase #somostodoshumanos, a discussão do preconceito racial realmente estaria em um lugar de maior importância”, opina.

O que é ser negro?

A luta pela recuperação da identidade negra é intrínseca nas entidades de combate ao racismo. Mas o que envolve se identificar como negro? “A identidade negra é o reconhecimento de nossa ancestralidade africana, de que a África é um espaço ímpar para a construção da humanidade. É a valorização da diversidade, do respeito ao outro. Fomos acusados de ser racistas ao contrário (o povo negro), mas quem cunhou o termo racismo não foram os negros. O negro se destaca nas áreas que estuda, no esporte. Estamos provando, com o tempo, que não existe nada mais estúpido do que o racismo contra todos os povos”.

Braga acrescenta que cada vez mais a população se autodeclara negra e tem orgulho de sua identidade. “Ser negro não é só a cor, mas também fazer com que a própria população negra se beneficie do momento econômico positivo que vivemos no Brasil, o País das oportunidades, que ajudamos a construir, mas na hora de pegar os resultados, o povo negro foi excluído.”Simone acredita que as políticas públicas e visibilidade da questão racial ajudam a aumentar a autoestima dos negros e a compreensão de quem são. “O racismo está no fenótipo, no cabelo, na cor da pele, no nariz. Isso impede que as pessoas ascendam para alguns espaços. É preciso valorizar o negro através da autoestima também.”

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Especialista traça perfil dos jovens que participam dos rolezinhos

Eles pertencem fundamentalmente à classe C e têm potencial de consumo (R$ 129 bilhões por mês) maior do que as classes A, B e D juntas (R$ 99 bilhões por mês)

"Esse país, que reúne 155 milhões de brasileiros, não quer discutir o passado, quer discutir o futuro. É isso que vai ditar a pauta eleitoral"
'Esse país, que reúne 155 milhões de brasileiros, não quer discutir o passado, quer discutir o futuro. É isso que vai ditar a pauta eleitoral' (Patrícia Cruz/Divulgação)
Presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles traça, por meio de pesquisa da empresa, um perfil dos jovens que têm assustado shoppings e parte dos frequentadores dos grandes centros comerciais pelo país. Eles pertencem fundamentalmente à classe C e têm potencial de consumo (R$ 129 bilhões por mês) maior do que as classes A, B e D juntas (R$ 99 bilhões por mês). Então, por que assustam? “Os rolezinhos esfregam na cara da sociedade que a renda cresceu numa velocidade muito maior do que a democratização dos espaços de consumo”, analisa.

Esses jovens estão inseridos em um “país imaginário”, traçado no mais recente levantamento do instituto, divulgado esta semana. Este país é formado pelas classes C, D e E do Brasil, que, hoje, juntas seriam o oitavo país do mundo em população e o 16º em consumo.

Para Meirelles, esse público será decisivo nas eleições presidenciais. “A discussão na eleição não vai ser o controle da inflação — legado do PSDB — versus democratização do consumo e melhora da renda — legado do ex-presidente Lula. Essa discussão vai ser pautada pelos jovens do novo país.” Confira a seguir os principais trechos da entrevista de Meirelles ao Correio.


Público

Descobrimos (em pesquisa) que os jovens da classe C são a maioria absoluta dos frequentadores de shoppings. Depois disso, vimos o quanto eles consumiam. Eles gastam mais do que a soma das classes A, B e D juntas, o que pode ser uma oportunidade (para os shoppings).

Jovens no rolê

Esses jovens que frequentam os shoppings são os adolescentes da nova classe média brasileira. São os filhos daquelas pessoas que melhoraram de vida nos últimos anos e que cresceram num universo sem tantas restrições orçamentárias. Cresceram tendo a certeza de que entrariam numa faculdade, que não teriam que parar de estudar para trabalhar. Mas que, mesmo assim, trabalham para ajudar na renda familiar. Enxergam no shopping um local corriqueiro para andar, seguro, no qual é possível se encontrar com amigos, onde há ar-condicionado e uma praça de alimentação decente.

O papel da rede

Além da questão econômica, a internet é fundamental para entender o que está acontecendo. Todas as classes sempre combinaram com amigos de se encontrar no shopping. Só que a rede social tem feito surgir pequenas celebridades da periferia, que são desconhecidas do grande público. Esses jovens, que têm 20, 30, 40 mil seguidores, querem se reunir com as pessoas. Marcam de se encontrar num local que acham mais adequado, que conhecem. E eles conhecem muito bem os shoppings. As pessoas não entendem ainda a força disso.

Conciliação

Se eu fosse dono de shopping, lançaria uma grande campanha: jovem, seja bem-vindo, traga a sua família, venha. É óbvio que não é zona. A questão é fazer com que essas novas celebridades da periferia não marquem no mesmo dia. Vamos criar condições. Programar essas reuniões para momentos de baixo fluxo nos shoppings, domingo de manhã, por exemplo, de alguma forma que não cause maior incômodo para outros frequentadores.

Espaços públicos

Os jovens das classes A e B também fazem rolezinho. Quando tem calourada na Universidade de São Paulo, vão para o Shopping Eldorado. O que quero dizer é que o jovem vai continuar indo ao shopping, independentemente dos espaços públicos, o que não significa que não faltam espaços na periferia. Óbvio que falta e isso deve ser incentivado. Mas não é a causa dos rolezinhos.

Discussão política

A ida ao rolezinho não tem nenhuma motivação política. Mas a consequência virou uma discussão política, porque, obviamente, os rolezinhos esfregam na cara da sociedade que a renda cresceu numa velocidade muito maior do que a democratização dos espaços de consumo. E os espaços de consumo que eram exclusivos da elite passaram a ser ocupados por outras classes, que adquiriram condição de comprar. E (essa discussão) não é só em relação ao rolezinho. Vem ocorrendo. Todo mundo se lembra da revolta de parte dos moradores de Higienópolis (bairro de São Paulo), porque (o governo) queria fazer metrô lá, o que ia atrair gente “diferenciada”. Todo mundo já ouviu aquela frase: “Esse aeroporto virou uma rodoviária”, o que tem, na verdade, como pano de fundo, é o incômodo com essa democratização. Sejam bem-vindos! Não lutamos tanto pela democratização da renda? Chegamos a ela. E ainda vemos gente falando frases como “é um absurdo os direitos das empregadas”, quase um “agora elas estão achando que são gente”. Mas a intenção era essa. Nos países desenvolvidos, o emprego doméstico é muito bem remunerado. Por que não ser no Brasil?

O país imaginário

Criamos um país imaginário (em nova pesquisa) chamado classe C, D e E do Brasil. Esse país movimentou R$ 1,27 trilhão (em 2013). Ele seria o oitavo maior país do mundo em população e o 16º em consumo. Estaria no G20 do consumo mundial. Esse país teve um crescimento de renda real muito maior do que a elite do Brasil. No entanto, ainda há desigualdades. Esse país tem um número considerável de analfabetos e quase 20 milhões de domicílios sem esgoto. Mas é um país próspero e otimista antes de tudo. Mais de 60% desse país, chamado periferia, acha que a vida melhorou, e pelo próprio mérito, o que o torna otimista em relação ao futuro.

Eleições

Esse país imaginário acredita que deve ter um governo que ofereça educação gratuita e saúde de qualidade para todos. Esse país tem mais de 40% de mulheres que são chefes de família e 60% são negros. É esse país que vai definir o cenário eleitoral da próxima eleição presidencial. É um país mais conectado do que no passado, em especial os jovens. É um país que tem esse jovem como novo formador de opinião, porque ele estudou mais do que o pai. E esse jovem vai querer discutir futuro. Quer saber o que vai ser o Bolsa Família 2.0. Vai ter emprego para o meu pai? Vai ter política de educação para meu filho? Esse país tem também a mulher como grande protagonista. E ele não quer mais cesta básica, quer plano nacional de banda larga. Esse país, que reúne 155 milhões de brasileiros, não quer discutir o passado, quer discutir o futuro. Quem é o político ou o governante que vai ser capaz de me levar adiante? É isso que vai ditar a pauta eleitoral.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

População vai às ruas de Bento Gonçalves no sábado


                        Fernando Levinski/Jornal Semanário
            Organizadores da passeata têm boas expectativas.

Manifestações que iniciaram em São Paulo estão se espalhando pelo Brasil. Jovens organizam protesto em Bento por meio de rede social 

 

Entrando na onda dos protestos que estão acontecendo nas principais cidades do Brasil, um grupo de jovens de Bento organizou para o sábado, 22, um protesto que iniciará no começo da tarde nas proximidades da rodoviária e seguirá até o prédio da prefeitura.
 
Os organizadores do evento, que criaram uma página na rede social Facebook para convidar a população, afirmam que o tema da passeata na cidade será contra o “desvio de verbas públicas no país, preço abusivo do transporte público, falta de segurança pública eficiente e de qualidade”, excessos de impostos, contra a PEC 37 (que elimina a capacidade de administração do Ministério Público) e sobre o dinheiro investido na Copa do Mundo. Até ontem, terça-feira, quase 3 mil pessoas confirmaram presença na passeata.

                                                                                 Fonte: Jornal Semanário
                                                                                Leia mais na edição impressa do Jornal Semanário.