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sábado, 22 de março de 2014

Que rufem os tambores! É preciso falar sobre arte

Nesta sexta-feira, dia 21, é comemorado o Dia Universal do Teatro. Em todo o mundo, celebrações homenageiam a arte originada a partir da necessidade do homem de se comunicar e estimular questionamentos sobre o ser e o existir. Em Bento Gonçalves, o gênero ganhou expressividade há cerca de 40 anos, tendo à frente nomes como Moacir Correa, Mônica Blume, Azir Beltram (já falecido) e Ivone Balsan. Quatro décadas se passaram, e, ao que tudo indica, a luta pelo reconhecimento da classe está longe de terminar. 

Que rufem os tambores! É preciso falar sobre arteO primeiro contato de Correa, o Moa, aconteceu quando criança, na década de 1970. No antigo teatro Marcopolo, que funcionava no atual prédio da Paróquia Santo Antônio, seria apresentada a peça “O rapto das cebolinhas”. Como não tinha dinheiro para comprar o ingresso, Moa negociou uma forma de conseguir o valor. “Minha mãe tinha uma quantia guardada para comprar lenha. Eu propus um acordo: se ela me desse o dinheiro do ingresso, eu mesmo buscaria lenha no mato. No momento em que estava na plateia, tive certeza que era aquilo o que eu desejava para a minha vida”, recorda. 

Depois de apresentado ao mundo artístico, o menino nunca mais parou. Como viver de arte era inviável na Bento Gonçalves das décadas de 1970 e 1980, para pagar as contas ele mantinha o teatro e a dança paralelos ao trabalho de militar e, posteriormente, de colaborador dos Correios. “Tive sorte de ter conhecido pessoas muito boas na minha vida. O coronel do Exército era um homem muito culto e permitia que eu me ausentasse para poder fazer as minhas apresentações”, recorda. Outro ponto de encontro de atores era o Cine Ipiranga – desativado –, anexo à sede do clube de mesmo nome, no bairro Cidade Alta. 

Festivais

Na década de 1980, existiam mais de dez grupos de teatro na cidade. Naquela época, foi realizado o 1º Festival de Teatro de Bento Gonçalves, em 1981. Foi então que Moa conheceu a trupe “Causas e Efeitos”, na qual atuou por cerca de cinco anos, colecionando prêmios. Depois vieram outros grupos, outras peças e muitos troféus. O Festival foi sucesso até 1987. Em 2007 e 2008, o evento chegou a ser reativado, mas no ano seguinte foi extinto. “O festival chegou a ser regional, vinham grupos de cidades vizinhas. Foi um tempo ótimo”, relembra Moa. “Era muito prazeroso, mas também foram tempos difíceis. Para mim, era impossível viver apenas com o dinheiro do teatro. Como era funcionária pública, a arte ficava em segundo plano”, avalia Mônica, que hoje integra o quadro de artistas da Maria Fumaça. 

Caça-níquel

Na década de 1990, os entusiastas do teatro Moa, Mônica Blume e Ivone Balsan, cansados de mendigar por um espaço em que pudessem se apresentar, pressionaram o Poder Público. Queriam um local para ensaiar e promover apresentações. Na mesma época, o artista Azir Beltram liderava o grupo de teatro italiano “Fabriqueta de Rider” (em tradução livre, Fábrica de gargalhadas). “Vivíamos de teatro caça-níquel. Montávamos aqui em casa o roteiro, o figurino e o cenário. Colocávamos tudo em sacolas de viagem e peregrinávamos de escola em escola vendendo nossa arte em espetáculos com ingressos de R$ 1 por aluno. Eram várias apresentações por dia. Ficávamos acabados”, observa Correa. 

Casa das Artes

“Que fique bem claro. A casa das Artes só foi concluída por pressão de três pessoas: eu, a Mônica Blume e a Ivone Balsan. Um dia dissemos: chega! Precisamos de um espaço para a arte. Não dá mais para ensaiar na rua ou em locais improvisados”, conta o artista. “Apresentamos um projeto à secretaria de Educação para realizar um festival de dança e teatro com o intuito de arrecadar valores que seriam revertidos para a conclusão do prédio – na época só existia a estrutura, sem cobertura. Não cobramos nada, estávamos nos doando, tudo pela causa. Depois de um tempo, a prefeitura ficou com vergonha e contratou uma produtora para captar recursos federais e, finalmente, concluir a Casa das Artes”, recorda Moa. 

A espera continua

Na opinião de Moa e Mônica, ainda há muito o que fazer em Bento em prol da cultura. “A verdade é que a Casa das Artes tem muitas deficiências. Não é apropriada nem para ensaiar e, muito menos, para se apresentar. Como queremos cobrar apreço do povo pela cultura se não há um espaço adequado para os artistas?”, reforça Mônica. “A Casa das Artes é muito linda, mas não é funcional. Falta o principal: um palco bem estruturado para receber grandes espetáculos. O público fica bem acomodado, mas e o artista? Eu vi a pedra fundamental da estrutura ser fixada, mas até agora não vi um palco decente. Não peço a Ópera da Bastilha, só quero contribuir com a criação de um cenário cultural promissor para as próximas gerações”, desabafa o artista, referindo-se à sede oficial da Ópera Nacional de Paris, que tem capacidade para mais de 2.700 pessoas e é palco de famosas apresentações de balé.

Reportagem: Jornal SerraNossa - Priscila Boeira

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Três anos após acidente, humorista Shaolin só 'fala' com os olhos

  Shaolin conseguiu responder com olhos a perguntas da família (Foto: Karoline Zilah/G1) Três anos depois do acidente que o deixou em coma, o humorista paraibano Francisco Jozenilton Veloso, o Shaolin, está consciente. Porém, só consegue se comunicar com os olhos. “Ele não consegue executar alguns comandos do corpo dele, como externar a voz. Mas ele responde através de sinais. Ele reage a coisas que aconteceram há muito tempo, mostra que lembra, escolhe as roupas dele”, relatou a esposa do comediante, Laudiceia Veloso.

O acidente aconteceu em 18 de janeiro de 2011 na rodovia federal BR-230, em Campina Grande. No mesmo dia, Shaolin foi socorrido e internado no Hospital de Emergência e Trauma da cidade. Pouco tempo depois, foi transferido para o Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde foi submetido a cirurgias e ficou internado por cerca de cinco meses. Desde que recebeu alta, permanece em casa, em Campina Grande, sob os cuidados da família.

Em 2012, Shaolin foi submetido a testes com um equipamento importado que identifica respostas através dos olhos. Esses testes descartaram a hipótese de que ele estivesse em um estado de coma vigil, em que há reações como piscar os olhos, chorar ou sorrir, mas que são involuntárias. “Shaolin tem consciência, sim, de tudo. Mas ele só interage da forma que ele consegue”, explicou a esposa do humorista.

Shaolin se comunica pela primeira vez após acidente (Foto: Divulgação) Segundo Laudiceia, não há previsão para que ele recupere os movimentos. “Isso é imprevisível. Nenhum dos médicos pode fechar um diagnóstico ou essa previsão porque o cérebro dele surpreende a gente a cada descoberta. Isso depende de Deus. Enquanto isso, a gente vai fazendo nosso trabalho, sendo paciente e cuidando do jeito que a gente tem que cuidar” declarou.

Laudiceia explicou que as respostas do marido estão dentro do esperado e que o resultado é muito satisfatório, considerado o quadro de saúde dele. Porém, ela admite que o processo é lento. Durante a espera por uma resposta mais significativa do cérebro, Shaolin faz fisioterapia e é atendido por fonoaudiólogos para manter o corpo funcionando.

“Ele é muito esforçado com a fisioterapia, com a fono, presta atenção em tudo que ele tem que reaprender para se recuperar. O esforço dele tem conseguido pequenas melhoras que são imensamente significativas”, disse Laudiceia.
 
Mesmo em meio a essa batalha constante que já dura três anos, Laudiceia disse estar bem. “Eu não vou dizer que a força que eu tenho é minha, porque não é. Essa força vem de Deus. Graças a ele eu estou bem. E todo o esforço que eu vejo em Shaolin me dá mais gás, mais ânimo para todos os dias fazer o que eu puder para ajudá-lo”, afirmou.

Interação

Laudiceia explicou que, por meio do movimento dos olhos, Shaolin escolhe as visitas que vai receber, por exemplo. Até os filhos do casal - um rapaz de 17 anos e uma jovem de 22 - pedem permissão ao pai antes de sair. “Nossa criação é assim. Mesmo nesse mundo moderno, nós mantemos o respeito entre pais e filhos”, disse a esposa.

Justiça

O caminhoneiro Jobson Clemente, acusado pelo Ministério Público de ter causado o acidente com Shaolin, foi condenado pela 4ª Vara Criminal da cidade de Campina Grande no dia 13 de novembro de 2012.

A pena foi de dois anos de detenção em regime aberto, que foram convertidos em prestação de serviços à comunidade e pagamento de três salários mínimos a entidades a serem determinadas pela justiça. Ele também teve a habilitação suspensa por um ano.

O Ministério Público da Paraíba recorreu da sentença pedindo a detenção do motorista. O recurso ainda não foi julgado.