TEL AVIV - O ex-primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, morreu
neste sábado após oito anos em coma em decorrência de complicações de um
grave derrame sofrido no dia 4 de janeiro de 2006. Sharon, de 85 anos,
estava internado no hospital Tel Hashomer, próximo de Tel Aviv. Segundo a
mídia israelense, sua saúde havia se deteriorado nos últimos dias após
problemas renais.
Em
coma desde o derrame, Sharon foi submetido a várias cirurgias, sendo a
última em setembro para corrigir um problema no sistema intravenoso de
alimentação. No início do ano passado, no entanto, um exame revelou que
seu cérebro ainda registrava atividade significativa.
Sua
internação, em 2006, forçou a transferência de poder para seu então
vice, Ehud Olmert. Após mais de 50 anos no cenário político e militar
israelense, Sharon conquistou seu lugar nas páginas da História como
símbolo da dureza. De jovem combatente dos grupos clandestinos judaicos
que atuavam na antiga Palestina antes da criação do Estado de Israel,
Sharon fez carreira no Exército, entrou na política e enlouqueceu seus
adversários. Incentivou a colonização de terras palestinas, retirou
assentamentos anos depois, enfrentou o líder palestino Yasser Arafat,
ganhou destaque internacional e, nos anos antes do coma parecia tentar
desvincular-se da imagem de “o trator” que lhe acompanhou durante toda a
vida pública.
Nascido em 1928 na pequena comunidade de Malal, no
norte de Israel, começou a carreira militar aos 18 anos no grupo
clandestino judeu Haganá, que lutava pelo fim da ocupação britânica da
Palestina. Durante a guerra da Independência, em 1949, ocupou um
importante cargo de comando e foi ferido numa batalha. Desde então,
Sharon passou pelos mais altos postos do Exército, e ganhou destaque
como chefe do Comando Sul, responsável pela liberação do Canal de Suez
na Guerra do Yom Kippur, quando tropas sírias, egípcias e jordanianas
atacaram o Israel em 1973 no feriado do Dia do Perdão.
Logo após o
fim do conflito, a eficiência como militar colocou-o rapidamente na
liderança do partido de direita Likud. Considerado excelente
estrategista, foi eleito deputado pela primeira vez em 1973 e os
discursos marcados pelo nacionalismo e pelo repúdio às tentativas de
negociação com os palestinos deram a Sharon a confiança da direita. Ele
ocupou diversas pastas ministeriais e foi o grande idealizador e
incentivador das colônias judaicas na Faixa de Gaza. Em 1982, então
ministro da Defesa, viu-se envolvido pela primeira vez num escândalo
internacional. Tropas israelenses invadiram o Líbano, e o Exército foi
acusado de incitar milícias cristãs a destruir os campos de refugiados
palestinos, promovendo um massacre.
Odiado pelos árabes e
tradicionalmente visto com desprezo pela esquerda israelense, a altivez
de Sharon aparecia em momentos de tensão e de decisões importantes. Sua
primeira esposa, Margalit, morreu num acidente de carro em 1962. Cinco
anos após o trauma, Sharon perdeu o filho Gur, de apenas 11 anos.
Casou-se pela segunda vez, com Lili, irmã da falecida esposa e grande
amor de sua vida - ela morreu em 2000. Pai de dois filhos, Gilad e Omri,
nos últimos anos antes do derrame Sharon vivia sozinho em sua fazenda,
no sul de Israel. Após tantas perdas pessoais, no dia a dia, ele fazia
questão de manter um ar tranquilo. Dono de um refinado humor, o premier
gostava de dar risadas e mantinha um estilo bonachão que sempre foi
motivo de piada entre os repórteres que circulam pelo Parlamento.
Inimigo de Arafat
Sharon
foi um dos homens mais protegidos do mundo. Fontes próximas a ele
contam que o forte esquema de segurança que o acompanhava 24 horas por
dia deixava-o muitas vezes chateado. Os jornalistas Gadi Blum e Nir
Chefetz, autores da biografia “O Pastor” contam que certa vez, voltando
do exterior, o premier teve vontade de comer falafel, típico sanduíche
feito com grão de bico do Oriente Médio. Conhecido glutão, no caminho do
aeroporto para Jerusalém, Sharon pediu aos assessores que parassem num
quiosque para saborear o quitute. A resposta negativa não deixou o
premier satisfeito. E ele se surpreendeu quando, de repente, o chefe de
sua segurança pessoal concordou em parar no caminho para que ele pudesse
comer o sanduíche. Ele nunca soube que todas as pessoas presentes no
estabelecimento, desde os “clientes” ao “dono” do quiosque, eram agentes
do serviço de segurança à paisana.
Símbolo de contradição, nem
mesmo a simplicidade e a calma tiravam dele o olhar penetrante e
desafiador. Demonstrava não ter medo de nada e fazia o que queria,
quando queria. Numa de suas atitudes mais ousadas, em 2000, o então
líder da oposição ao governo do trabalhista Ehud Barak, subiu ao Monte
do Templo - Esplanada das Mesquitas, para muçulmanos - na Cidade Velha
de Jerusalém para provocar os árabes e provar a soberania israelense
sobre a disputada cidade santa. Muitos apontam a visita como o pontapé
inicial da segunda intifada, a revolta palestina contra a ocupação
israelense. Durante um infinito círculo de atentados em Israel e ações
militares nos territórios palestinos, Sharon travou uma batalha pessoal
contra Arafat, um de seus grandes inimigos. Negou-se a negociar ou mesmo
dialogar e confinou o líder palestino em seu escritório na Muqata, em
Ramallah, na Cisjordânia, durante quase dois anos.
Mas enquanto
seu prestígio e imagem de homem forte cresciam, dentro do homem Sharon,
algo parecia mudar. De líder nacionalista e expansionista, decidiu que
era chegada a hora de desmantelar os assentamentos judaicos na Faixa de
Gaza, para espanto de milhares de simpatizantes da direita. Mais uma
vez, “o trator” atropelou a oposição e levou adiante o plano de
desconexão unilateral que removeu pelo menos oito mil colonos de Gaza em
agosto de 2005.
Quando enfrentou a rebeldia dos radicais do Likud
e se viu sem apoio dentro do partido que comandou com mão de ferro,
Sharon não hesitou e abandonou a legenda. Lançou-se, então, numa nova
empreitada: aliou-se a velhos rivais moderados, como o presidente Shimon
peres, e fundou o Kadima, baseado numa plataforma de centro. Dois meses
após o lançamento, o partido já apontava como líder absoluto em
pesquisas de opinião entre os eleitores israelenses.
Analistas
tentam compreender até hoje o que se passava pela cabeça de Ariel
Sharon. Talvez a imagem desgastada por anos de conflitos e divergências
internacionais tenha alguma influência sobre a mudança de plataforma
político-ideológica. Em Israel, alguns afirmam que a retirada de Gaza e a
guinada em direção ao centro-esquerda foram uma tentativa desesperada
de entrar na História como um homem de paz. Outros, que foi uma
artimanha para desviar a atenção de escândalos de corrupção envolvendo
sua família.
Nem mesmo a idade avançada impedia Sharon de manter o
estilo centralizador. Sua rotina de trabalho que chegava a durar 20
horas por dia. Poucos meses antes de adoecer, numa de suas últimas
entrevistas a um popular talk show, revelou que nunca conseguia dormir
durante o dia e que, para relaxar, gostava de passear no campo de sua
fazenda e assistir a filmes românticos nos fins de semana. Considerado
uma espécie de mito por israelenses, sabe-se apenas que Sharon deixou a
vida e muitas dúvidas sobre sua verdadeira identidade.

